Nem idade para saber o que era namoro eu tinha, mas podia sentir meu coração acelerar quando ele chegava. Meu pai tinha em frente de casa uma loja de moveis usados e ele era seu ajudante, filho de seu melhor amigo, Francisco.
Eu acordava cedo todas as manhãs e ajudava minha mãe a por a mesa do café por que era habito ele chegar cedo e antes de começarem a por os móveis para fora, tomarem cafe´na nossa cozinha. Meu pai o tratava como filho e podia ver sem duvidas o quanto se orgulhava dele. Miguel era um pouco mais velho do que eu, tinha apenas quinze anos e eu quatorze, era um jovem robusto, de tanto carregar móveis pesados e antigos, seus braços eram fortes, tinha as costas largas e era alto. O que mais me chamava a atenção nele, eram seus olhos. Cor de mel, um castanho claro que as vezes parecia amarelo, dependendo do seu estado de humor ou da luz do sol, e seu olhar era penetrante, quando falava conosco, Miguel encarava de uma forma tão inquisidora que eu não conseguia sustentar seu olhar, sempre baixava meus olhos para o chão, timida.
Ele sabia que eu sonhava com ele, eu nunca fui boa em disfarçar, por isso escondia de mim seus namoricos, embora eu sempre ficasse sabendo. Eramos amigos, riamos muito juntos na loja, ele costumava me acompanhar até o colegio a pedido do meu pai e conversavamos sobre muitas coisas. Chegou a um ponto que só de me olhar ele sabia que não era um bom dia no mês para brincar comigo, ou se eu estava animada para jogar baralho. Eu já não sabia viver sem ele.
Tudo ia muito bem, até um dia em que resolvemos assistir a um filme no cinema juntos. Ele me ouviu comentar sobre o filme com minha mãe e disse querer assistir também, então meu pai permitiu que fossemos. Entramos cedo na sala do cinema, as pessoas transitavam procurando lugares bons, algumas iam comprar pipoca ou refrigerante, Miguel foi buscar para nós um saco de pipocas e trouxe duas latas de refrigerante, sentando ao meu lado perguntou.
_Podemos tomar sorvete depois do cinema, o que acha?
Assenti com a cabeça, otima ideia, quanto mais tempo pudesse ficar com ele, melhor. Pensava se meu pai percebia meus sentimentos e fingia não saber, ou se ignorava o fato de eu desejar ser mais que amiga de Miguel. E eu senti que ele queria dizer algo mais.
_O que... - ele começou sem jeito, hesitou, mas continuou. - Lis, o que acha da gente namorar?
Meu coração disparou, senti as pernas bambearem, ele estava segurando o saco de pipocas e uma das latinhas me olhando na expectativa e eu sabia que estava com cara de louca encarando-o. Então ele suspirou e mordeu o labio inferior, ainda me olhando daquele jeito no fundo dos olhos.
_E então? Será que me enganei? Não acha uma boa idéia?
_Miguel eu... - não sabia o que dizer, estava exultante, mas não esperava isso. - nem sei o que dizer.
Então ele sorriu, meio maroto, pos a lata no chão e depois de secar a mão na camiseta, passou-a no meu rosto e eu tremia muito naquele instante.
_Diz que sim, então.
Sorri.
Balancei a cabeça positivamente e vi seus labios aproximando-se dos meus, pensando que nem beijar eu sabia ainda, mas ele apenas tocou de leve minha boca num selo e pegou a lata no chão, ajeitou-se e colocou o saco de pipocas entre nós dois.
O filme começou..

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